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“Se espera que a mente pare, você vai esperar para sempre´´

August 5, 2015

 

 

"Uma vez o meu mestre me disse: “Se espera que a mente pare, você vai esperar para sempre”. 
De repente tive que refletir sobre a minha possibilidade de iluminação. Eu vinha tentando parar a minha mente havia muito tempo e eu sabia que tinha que encontrar uma outra via de acesso.

 

A instrução espiritual de “apenas parar” não se dirige à mente, aos sentimentos ou à personalidade. Dirige-se à reflexão ou pensamento posterior que assume o crédito e a culpa e diz: “Isso é meu”. Pare! Esse é o alvo do ensinamento de parar. 
Apenas pare com isso. E daí, nesse momento, sinta como esse sentido de “eu” se sente tão completamente desarmado. Quando se desarma o sentido de “eu”, ele não sabe o que fazer, se ir para frente ou para trás, para direita ou para esquerda. Eis o tipo de parar que é importante. O resto é só um jogo.

Então, nesse parar, começa a emergir um diferente estado de ser, um estado indiviso. Por quê? Porque não estamos mais em conflito com nós mesmos.

A mente ouve estas palavras e pergunta: “O que é um estado de ser indiviso?” Isso também é perder o que está acontecendo agora mesmo. A gente sente um estado indiviso de ser; ele não pode ser encontrado nalgum espaço abstrato ou conceitual, porque o próprio espaço é um estado dividido. Tocamos o estado indiviso quando nos permitimos estar desarmados, quando não estamos tentando provar ou negar nada e ficamos naquele estado de ser desarmado sem resistência.

Surge um estado de literalmente estarmos no corpo e além do corpo, e o corpo já não está mais em guerra consigo mesmo. A mente pode ou não estar tendo pensamentos, mas esses pensamentos não estão em guerra entre si. 
Torne-se curioso sobre a verdadeira natureza de si mesmo, sobre quem você realmente é, porque essa curiosidade o abre para o estado indiviso. A partir do estado indiviso, uma das primeiras coisas que se percebe é que você não sabe quem você é. Antes disso, quando você sabia quem você era, você era dividido – interminavelmente. A partir daqui, onde não há divisão, não há o pesado, restrito e confinado sentido de si. Você se torna um mistério.

A divisão facilita que se encontre um sentido de si. Se estivermos com raiva, por exemplo, é aí que ele está. Mas, quando há somente raiva e não há identificação com a raiva, até a própria raiva de repente se desdobra. E então o que eu sou? Não sou a “minha” raiva, se não sou aquele que está dividido – o que sou eu?

Permita que o mistério de ser se desdobre de uma maneira vivencial. Comece ao nível do ser mais do que do pensar. À medida que se desdobra o mistério, vamos ficando cada vez mais radiantes por sermos apenas esta consciência presente. E daí o sentido de identidade começa a deixar de se definir através da divisão e conflito internos. A mente descobre que não há um gancho para pendurar a identidade, de modo que a identidade começa a desestruturar-se em abertura. Misteriosa e paradoxalmente, quanto mais se desestrutura a identidade, mais vivos e presentes nos sentimos. O sentido de si é como se fosse açúcar a dissolver-se na água até que parece não haver mais um eu e todavia ainda existimos.

É possível que Buda dissesse: 
“Dissolvido todo o açúcar, não há eu”. Ramana Maharshi poderia dizer: “Dissolvido o açúcar na água, água e açúcar são a mesma coisa – há somente o Eu”.
A máxima liberdade do ego inexistente é vermos que na verdade ele é irrelevante. Enquanto for percebido como relevante, ele continua a “tornar-se”. Todas as boas intenções do mundo simplesmente o abastecem. “Estou me livrando de mim mesmo cada vez mais a cada dia e um dia estarei completamente livre de mim mesmo e absolutamente não terei ego”. Como isso soa para você? É ego. 
Mas, quando num momento de discernimento se vê que o eu é irrelevante, termina o jogo.É como alguém que está jogando banco imobiliário e acha que sua vida depende de ganhar o jogo, quando de repente a pessoa se dá conta de que é irrelevante – não importa. Pode até continuar jogando. Pode ir buscar um sanduíche. Esta vida não trata de vencer o jogo espiritual; trata de acordar do jogo.

Há ainda em nós esta outra parte chamada “condicionamento”, que não é ego. Condicionamento é condicionamento; não é condicionamento egóico. Condicionamento é como se instalássemos um programa no computador mental. Quando se instala o programa, isso não significa que o computador tenha um ego. Simplesmente foi condicionado temporariamente. Na idade em que nos tornamos adultos, o corpo-mente já está completamente condicionado. Por esse condicionamento tem-se culpado o ego, mas o condicionamento não vem do ego. O ego é o pensamento que surge em seguida na esteira do condicionamento, que é onde acontece toda a violência real.

Quando se percebe que o condicionamento é como uma programação fornecida pela codificação genética, pela sociedade, pelos pais, professores, gurus, etc. (a mente também começa a condicionar-se a si mesma, mas essa é outra história), começamos então a reconhecer que o condicionamento não tem nenhum eu, que não há a quem culparmos. É inútil culparmos a nós mesmos, ou outra pessoa, mais do que culparíamos nosso computador quando colocamos nele um disco. Olhe no presente momento para ver qual condicionamento está aí e ver-se-á que não há culpa alguma nele. Ele faz parte da existência. Sem condicionamento ou programação em nossos corpos, pararíamos de respirar, o cérebro tornar-se-ia uma conversa mole, sem inteligência – o que também é condicionamento.

O que mantém o condicionamento firmemente ancorado dentro de nós é que o interpretamos como “meu”. Então, é claro, há culpa própria e alheia e tentamos nos livrar do condicionamento, porque cremos que “eu o criei”, “eu não o criei” ou “não consigo me livrar dele”, e a mente não gosta disso. A mente se ilude em pensar que pode livrar-se desse condicionamento, mas, 
quando a verdade se instala, começamos a ficar cada vez menos divididos. Quando surge o condicionamento, se não é reivindicado como “meu”, ele surge dentro de um estado indiviso.

Este também poderia chamar-se de estado de ser não condicionado. Quando o condicionamento depara com um estado indiviso, há uma transformação alquímica. Há um milagre sagrado.Quando algo surge, pode-se ter a experiência de que “isto sou eu” ou de que “estou eu aqui de volta” – isto não sou eu”. Ambos são movimentos da mente, ou pensamento posterior, mais conhecido como ego. Mas quando ocorre o estado indiviso, podem acontecer duas coisas. 
A primeira pode ser um despertar para a nossa verdadeira natureza, que é este estado não dividido, este ser indiviso. A segunda coisa que pode acontecer é que o condicionamento, a confusão que inocentemente foi transmitida pela ignorância, pode reunificar-se. Quando surge o condicionamento dentro de uma pessoa que está num estado indiviso, onde ela nem se apropria dele nem o nega, então pode haver um processo alquímico sagrado através do qual o condicionamento se reunifica totalmente por si. Como a lama na água, o condicionamento naturalmente apenas sedimenta no fundo. É como um milagre natural.

Isso pode ser muito delicado, pois, se houver a mínima apropriação ou a mínima negação de apropriação, esse processo de certa forma se corrompe. Ele requer de nós uma suavidade e abertura interiores, porque este sentido indiviso é muito suave e não podemos procurá-lo como um martelo à procura de um prego. É por essa razão que os ensinamentos espirituais ressaltam a humildade, a qual nos ajuda a entrar na verdade de nosso ser de uma maneira suave e humilde.

Não podemos forçar os portões do céu. Ao invés, devemos nos permitir ficar cada vez mais desarmados. Então a pura consciência de ser fica cada vez mais radiante e percebemos quem somos. Essa radiância é o que somos.

Quando fica muito claro, vemos que somos esta claridade, esta luminescência, e então começamos a perceber por nossa própria experiência o que significa este nascimento humano. Esta claridade volta para si mesma, para cada tantinho de confusão, para cada tantinho de sofrimento. Para tudo de que o eu procurava se afastar, retornará o Eu sagrado. Este Eu radiante começa a descobrir sua verdadeira natureza e quer libertar-se de si, desfrutar de si 
e verdadeira amar-se em todos os seus sabores e aromas. 
O verdadeiramente sagrado é o amor ao que é, não o amor ao que seria. 
Este amor liberta o que é.

O verdadeiro coração de todos os seres humanos é o amante do que é. 
É por isso que não podemos fugir de nenhuma parte de nós mesmos. 
Não porque sejamos um desastre, mas porque somos conscientes e estamos retornando para tudo de nós mesmos neste nascimento. 
Não importa quão 
confusos estejamos, retornaremos para cada parte de nós mesmos que foi deixada fora do jogo. 
Este é o nascimento de verdadeira compaixão e amor. 
Há muito tempo dizem as tradições espirituais que você tem que eliminar tanta coisa para alcançar o amor. Mas isso é um mito. 
A verdade é que é o amor que realmente liberta."
Adyashanti em Satsang

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