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O casamento, contrato social e (in)sustentabilidade

December 30, 2015

 

 

 

Escrevo este texto no quarto ano do meu casamento com o Miho. Ainda não atravessamos o crítico setenário. Quero bem ler esse texto daqui a 3 anos e ver o que dele ainda fará sentido.

 

Com meus 30 anos de idade, em plena virada para o ano de 2016, tenho presenciado constantemente o desarranjo de casamentos de vários amigos e familiares. Parece fato que o casamento está em crise. Diga-se de passagem, essa crise não é nada nova e já vêm mostrando escancaradamente seus sintomas, sobretudo, depois o feminismo.

 

Me parece que o casamento, tal qual é, é mesmo insustentável. Agora se faz um mês que eu e Miho nos mudamos para nossa “primeira” casa, pois desde que estamos juntos vivemos com o pé na estrada sem fincar raízes em um só lugar. Estando aqui estabelecida diariamente por um mês, eu posso observar quantas mudanças já ocorreram na natureza ao nosso redor. Quantas mudanças acontecem em nós ao longo de nossa vida? Dizem que a cada 7 anos trocamos todas as células de nosso corpo, é como se a cada setenário você mudasse de corpo, de certa forma, “reencarnasse”. Quem sabe não seja por isso que é tão comum que relacionamentos acabem no sétimo ano de vida? Isso falando apenas das mudanças biológicas. As mudanças psicológicas podem ser bem mais rápidas, especialmente na era digital na qual estamos expostos à toda sorte de impressões e informações. Como podemos ter a pretensão de que conhecemos alguém? Talvez não conheçamos nem a nós mesmos, quanto mais o outro. A pessoa com a qual nos casamos e nós mesmos estamos a mudar todo o tempo. E é mais do que normal e desejável que os caminhos se encontrem e que, em seu devido tempo, se separem, sigam rumos distintos. A visão de mundo muda e com ela mudam-se as necessidades, as prioridades e as querências. Estamos em um mundo de impermanência. Compreender isso parece ser a base do despertar espiritual. Diante dessa impermanência, como podemos então manter nossa jura de “até que a morte nos separe”?

 

Não precisamos quebrar muito a cabeça para concluir que o casamento é, sobretudo, um contrato social muito antigo criado para atender necessidades de pactos e demandas sociais e políticas. Todo o romantismo adicionado a ele é construção moderna e não tem nada a ver com a realidade. Nem tão pouco o amor depende do casamento. Mas, espera aí... nesse ponto pode surgir em ti o questionamento: mas, e a beleza de construir uma vida a dois? E a necessidade de aprofundamento da intimidade? E os inquestionáveis aprendizados advindos da escolha de suportar e dar suporte a uma pessoa? São meras quimeras? A minha parca sabedoria me diz que não. A escolha de construir uma vida a dois e com ela aprofundar a intimidade e vivenciar todas as lições advindas dessa escolha me parece mais do que humana, me parece divina.

 

Parece-me que chegamos aqui no ponto chave desse texto: como podemos vivenciar com totalidade e integridade a vida a dois e ao mesmo tempo não nos perdermos em todas as construções sociais limitantes advindas do contrato casamento?

Prefiro deixá-los com a pergunta a oferecê-los uma resposta pronta. Até mesmo porque qualquer resposta pronta se aproximaria de uma fórmula e, especialmente no quesito relacionamento, uma fórmula é quase sempre aplicável: devemos fugir de fórmulas. Exatamente por seremos tão mutáveis, metamorfoses ambulantes, cada relacionamento é totalmente único e cada parceria terá que descobrir a sua forma de ser e estar.

 

Porém, eu gostaria de deixar algumas contribuições para as suas reflexões. Dois aspectos me parecem fundamentais de serem considerados caso você queira construir uma vida a dois. Todos os relacionamentos mais duradouros e inspiradores que eu conheço contêm um elemento em sua composição, a admiração. É vital que haja admiração mútua entre os parceiros e isso vale para qualquer tipo de parceria, não apenas conjugal. Da admiração nasce o respeito, a amizade e o carinho. Você quer estar perto de quem você admira, você quer agradá-lo e não machucá-lo. Portanto, por mais perdido que você esteja em suas histórias e projeções mentais, a cada ponto de crise do relacionamento vale nos perguntarmos: eu admiro essa pessoa? Reconheço essa admiração? Estou conseguindo expressar essa admiração? Talvez vale a pena relembrar o que você admira nela. E veja bem, admirar não é precisar dessa pessoa, são coisas bem diferentes. Se nenhum traço de admiração for encontrado, é bem provável que, a essa altura, o seu relacionamento tenha se tornado um mero contrato social, melhor rever as bases.

 

Outro aspecto que eu considero importante de levar em consideração se queremos construir uma vida a dois é a flexibilidade. O quanto estamos dispostos a cultivar essa qualidade? Relacionamento exige muita flexibilidade física, moral e psicológica.

 

O que flexibilidade física tem haver com relacionamentos? Muita coisa. Imagina que você gosta de cama dura e o seu parceiro gosta de cama mole. Na melhor das hipóteses, vocês encontrarão um colchão intermediário, mas, ainda assim, você terá que se adaptar. O bebê nasceu, há de se ter muita flexibilidade para deixar as horas de sono e as vontades pessoais. Dividir o espaço, compartilhar o alimento, enfim, muita coisa.

 

No âmbito moral, nem se precisa dizer muito, há tantos conceitos e pré-conceitos do que se deve ou não fazer estando em um relacionamento... A cativação da sexualidade é, sem dúvida, o pior legado para os relacionamentos conjugais que os últimos 5 milênios de patriarcado nos deixou. Há de se flexibilizar, questionar, experimentar. E aqui a coragem faz uma boa parceria com a flexibilidade.

 

No âmbito psicológico, ichi, o buraco é fundo, tanto lixo acumulado por anos sobre o romantismo, o príncipe encantado, o lugar do macho e da fêmea, enfim... é tanta coisa que nem me darei o trabalho de adentrá-las. Prefiro finalizar essa reflexão dizendo: que amemos uns aos outros, que tenhamos coragem de escolher estar ao lado de pessoas que nós admiramos, que nos movimentemos flexibilizando corpo e mente. Que a totalidade do amor roube de rompante todas as ideias pré-concebidas que temos sobre o que é amar.

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