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O prazer e a dor como portais para a transcendência

November 4, 2019

 

 

Quando abrimos o portal para o prazer, estamos abrindo também, inevitavelmente, o portal para a dor. Assim é o mundo da dualidade, o mundo dos fenômenos. Não há como escapar.
E porque isso é assim? Porque o portal para o prazer é a sensibilização e, nos tornando mais sensíveis, estaremos mais vulneráveis a sentir também as dores humanas. É por isso que, na busca tão forçosa de evitar a dor, estamos nos fechando ao prazer e aqueles prazeres que experimentarmos serão, então, muito fugazes e carregarão o gosto do medo da impermanência.

 

E, então, como podemos sair dessa charada? Podemos dizer que a visão tântrica propõem uma solução que é o entendimento de que as experiências mais intensas, sejam emoções ou sensações, independente de serem agradáveis ou desagradáveis, são portais para a evidenciação daquilo que somos. A experiência passa, o que é que permanece? É a isso que devemos investigar.

 

Na perspectiva tântrica, a experiência de prazer deve ser vivenciada intensa e plenamente, não como um fim em si, mas, como um meio, para perceber a paz e a felicidade que já existiam antes desse prazer acontecer, estava presente durante a sua permanência, e permanece depois que a sensação do prazer sensorial passa. O prazer dos sentidos passa, sempre passa. Exatamente o mesmo é com a dor. Se temos a sensibilidade e o cultivo adequado da prática meditativa e auto-investigativa, esse ou dor temporários podem ser sim um belo portal que nos aponta para a nossa natureza bem-aventurada, para um prazer que é pleno e permanente.

 

O cultivo adequado da prática meditativa e auto-investigativa desenvolve a capacidade de voltarmos a nossa atenção para a fonte do prazer e da dor, de onde eles vêm e para onde se vão, e perceber que eles vêm do mesmo “lugar”, que não se trata de um lugar físico, mas, realmente da fonte de toda experiência. Para o Tantra, quanto mais intensa a sensação ou a emoção, maior o potencial dela nos levar de volta a essa fonte. Isso significa que devemos ficar buscando por experiências intensas? Não! Isso significa que devemos cultivar o estado meditativo, a sinceridade na busca do auto-conhecimento e a fé de que a vida, naturalmente, nos trará as experiências que serão mais favoráveis para a nossa plena realização! Afinal de contas, ela é mestra e sempre fará isso de um jeito ou de outro!


Com o cultivo da prática meditativa e auto-investigativa, é provável que comecemos a experimentar a dor (seja emocional, seja física) da mesma forma que vivenciamos o prazer. Não há um grande investimento na busca pelo prazer, assim como não há um grande esforço para se evitar a dor, pois, entende-se que ambos vêm dessa mesma fonte e para ela retornaram em seu devido tempo. Que eles são regidos pela sabedoria da vida e não cabe a nós tentar controlá-los, por mais que tentemos!

 

Mas, como isso pode ser feito na prática? O Vjnana Bhairava Tantra, uma das escrituras tântricas que mais se popularizou no ocidente, aponta algumas práticas para isso. Como todas as demais práticas descritas nas escrituras tântricas, essas práticas de cunho sensorial também são codificadas de forma que a compreensão total delas só pode ser recebida diretamente de um mestre iniciado.


Eu não ousaria tentar decodificar essas práticas aqui, mas, o que posso compartilhar a partir da minha experiência direta é: para que o prazer sensorial se torne um portal para a transcendência, e, portanto, para a bem-aventurança, não há dúvidas de que há de haver um bom nível de sensibilidade e desapego.

Por sensibilidade aqui eu descreveria: a capacidade de manter a atenção muito focada nas sensações e sentimentos experimentados, sem se prender demasiadamente a qualquer pensamento, ou seja, a qualquer narrativa que a mente possa trazer sobre a experiência vivida ou sobre qualquer outro assunto. Ficar apenas com a pura e simples intensidade das sensações e emoções. E ficar, e ficar, e ficar, sem nenhum lugar para chegar. Isso não me parece possível sem o “cultivo adequado da prática meditativa” que eu já citei anteriormente. Não vejo outra forma para o desenvolvimento da sensibilidade se não a prática meditativa, o treinamento da mente em focar em um só lugar. Sem isso, a tendência mais natural da nossa atenção é estar espalhada por todos os lugares e aí, nos desensibilizamos, perdemos a capacidade de perceber o que estamos experimentando diretamente, aqui e agora.

 

Portanto, seja para um maior desfrute sensorial, seja para o prazer espiritual, transcendetal, a prática meditativa é recomendada pelo Tantra.

 

O desapego, a esse dai, é uma qualidade exigente de se desenvolver. Parece claro que o apego vem da identificação com o corpo-mente, com as histórias que acreditamos ser. E, em um nível de auto-investigação mais profundo, percebemos que mesmo o corpo, apesar de parecer muito concreto, é mais uma história acontecendo naquilo que realmente somos. Quanto maior a identificação com essas histórias, maiores os apegos, pois, estamos sempre tendo que defender uma posição, um conceito, uma ideologia, alguém, defender aquilo que acreditamos que somos e que para “ser” depende de determinadas experiências. Portanto, não há desapego sem uma profunda e dedicada investigação de quem se é.

 

Porém, interessante é que, na visão do Tantra, o desapego não significa necessariamente se abster do desfrute sensorial. Isso é uma das possibilidades, acho que a mais praticada entre os transcendentalistas. E, eu ousaria dizer que, apesar de ser a mais segura, parece que tem dado errado para muitas pessoas que não conseguem se abster dos prazer dos sentidos e viver uma vida mais renunciada e vivem uma frustração crônica por conta disso. Não sei se estou inventando da minha cabeça, mas, me parece que tem muito transcendentalista vivendo essa frustração por ai. Ou seja, nem consegue se entregar plenamente para o prazer sensorial e desfrutar dele, nem consegue se abster da busca por essa satisfação sensorial.
Acabo de realizar que eu acho que estou falando de mim mesma ;-)!!!

 

Enfim, reflito aqui enquanto escrevo, como um exercício mesmo de trazer ao entendimento o que já me parece um nível de realização experimentado sobre isso.
E, a minha experiência é, quando vivenciamos o prazer ou a dor intensamente e há uma entrega tão plena para essa experiência, sem nos rendermos à tentativa de pará-la ou mantê-la, o senso de pessoalidade, o senso de eu, como um indivíduo separado da experiência, se perde, restando-se apenas a experiência, o sentir, o ser, presença, consciência.


Porque haveria eu então de me preocupar em evitar prazeres ou dores se elas são portais que se abrem naturalmente para revelar a verdade que eu sou?
Quem é esse que tenta controlar a experiência, o nível de prazer ou dor que pode ser vivenciado?
Ou, quem é esse que fica fugindo da dor e buscando por alguma forma de desfrute sensorial?
Quem é esse é nega a vivência direta, pulsante do que é experimentado a cada instante? E que acha que a experiência desse instante é melhor ou pior do que qualquer outra experiência?

Portanto, parece que a resolução dessa charada está em observar os movimentos naturais da mente de rejeição à dor e apego ao prazer e não se identificar com eles, apenas deixá-los passar.

 

Nesse sentido, não há dúvidas de que o Tantra, essencialmente, não é um caminho de busca pelo prazer. Apesar de trazer uma visão de mundo desrepressora e ver o corpo como uma meta-geografia do universo, o Tantra aponta, essencialmente, para aquilo que está além de toda experiência de dor e prazer, para aquilo que permanece e não é tocado pelo aparecer e desaparecer da dor e do prazer e que, ao mesmo tempo, é a própria dor e o próprio prazer se manifestando, vivo e pulsantemente presente.

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